O boxe entrou na vida de Francielle Jamily Gregório Santos por acaso há cinco anos. A paraense resolveu seguir a irmã mais velha e foi fazer um treino, tudo na brincadeira. Ela acabou se apaixonando pela modalidade e trocou Marituba (Pará) por São Paulo no começo deste ano para treinar com a seleção brasileira de olho em uma vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
No entanto, não espere um conto de fadas sobre a boxeadora de 18 anos. Longe disso. A atleta passou muitas dificuldades para começar a conquistar os seus objetivos. Sem dinheiro para passagem de ônibus, ela caminhava durante todos os dias por 40 minutos para chegar na academia. Essa foi a rotina durante um período até encontrar um novo local mais perto de casa para os treinos.
Para quem praticava ballet, a escolha foi surpreendente. “Mudança radical, bem diferente”, reconhece Francielle. Até pela diferença entre as modalidades, a mãe assustou com a opção. “No começo, ela tava com medo, falava: ‘Olha isso? Vai querer isso da vida?’ Mas agora ela me apoia, é a minha maior incentivadora”, conta.
A própria história de vida da mãe serviu como incentivo para a jovem. Ela é a caçula de quatro irmãos e viu a mãe ter que se desdobrar para nunca deixar faltar nada dentro de casa depois que o pai abandonou a família.
Além do sonho de um futuro no esporte, o boxe ajudou Francielle a conseguir seu primeiro emprego. Ela fazia parte de um projeto social e trabalhou com menor aprendiz em um aterro sanitário, chegando a ser efetivada quando completou 18 anos. Era a empresa que ajudava com despesas e material de treino.
O convite para treinar com a seleção brasileira veio depois de ficar com a medalha de bronze do peso mosca (até 51 Kg) na categoria Elite durante o 18º Campeonato Brasileiro de Boxe Feminino em dezembro do ano passado. “É um sonho de qualquer atleta que vem de baixo, é ter a oportunidade de estar aqui na seleção”, comemora.
Porém, para realizar esse sonho ela precisou deixar mãe, irmãos, marido e amigos no Pará e se mudar para São Paulo. Há dois meses na capital paulista, Francielle revela que a adaptação não foi fácil. “O começo foi difícil, chorava todos os dias, sentia saudade, queria ir embora, mas agora já está melhor, já estou mais adapta”, explica.
A chamada de vídeo ajuda a matar a saudade da família, mas o açaí do Pará e a comida da mãe não tem tecnologia do mundo capaz de amenizar. Porém, enquanto precisa estar longe, ela foca nos treinos.
A rotina de Francielle inclui treino seis vezes por semana, sendo que de segunda a sexta em dois períodos. O peso é controlado, ela não pode passar de 53,5 kg. Se isso acontecer, ela é multada em 10% do salário.
Durante esse período em São Paulo, a boxeadora diz que não teve dificuldades com a balança, mas que já fez loucuras no passado para conseguir atingir o peso necessário para lutar, como ficar três dias sem se alimentar. “Eu me tremia toda”, relembra. Hoje, ela reconhece que uma alimentação balanceada é a chave para conquistar bons resultados.
A maior chance de Francielle ir para Tóquio é como reserva. Mas não pense que isso é sinal de desânimo para essa jovem de 18 anos, que sonha em ser campeã olímpica. No momento, o objetivo é ganhar experiência para poder estar pronta para disputar os Jogos de Paris em 2024.
“Eu consegui a oportunidade de estar aqui bem cedo, sou a mais nova de todo mundo aqui, então, para mim, é só o começo, ainda tenho muita coisa para aprender, muita coisa mesmo”. “A minha meta é ir [para Tóquio]. Se não der para mim este ano, eu sei que estarei bem mais preparada para a próxima [Olimpíada]”, completa.
*Crédito da foto: Divulgação
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